02 outubro, 2015

Questões de forno e fogão



Em termos de cozinha, posso dizer que sou uma autodidata. Tirando uma tia avó, as mulheres da minha família eram mais afeitas aos bordados, tricot´s, costuras e jardins do que as lides culinárias. Do interior, de onde eu venho, as lembranças  são dos dias de carnear os bichos que pastavam no meu pátio. Sangue, vísceras, pedaços de carcaças pendurados em ganchos, e carnes nobres sendo meticulasamente congeladas para posterior preparação. 

A alimentação baseava-se nisso: carne, arroz, feijão, ovos, espinafres, couves, aipim, batatas, frutas, e sucos de maracujá, inesquecíveis, que sempre foram consumidos aos litros, por mim, que desde criança sofria de insonia. Não lembro de ter tido sono algum antes de beber suco de maracujá, embora sinta até hoje o amarguinho, o aroma, daquela fruta colhida da parreira que ficava na cerca de arame entre o meu pátio e o da vizinha. Haviam também os bolos de laranja e os queijos e ambrosias preparados com o leite das nossas vacas leiteiras.


A culinária deveria ser rápida e prática, pois minha família sempre foi mais de ficar na sala bebericando licores, chás e cafés do que em volta da mesa se entulhando de comida. O alimento era coadiovante num mundo com tantos assuntos para debates.


Mas havia a Aninha Comas, e com seu programa matinal na televisão, comecei a me interessar pela alquimia produzida entre fermentos, açucares, pontos de caramelo, temperos de carnes, molhos e afins. Aos 7 anos quase coloquei fogo na cozinha quando no meio da tarde resolvi preparar um belo arroz com queijo para o lanche da tarde.


Aí me foi permitido, sob supervisão, claro, tentar preparar a massa da panqueca, e logo aprendi a minha receita favorita: torta de bolacha.

Pela necessidade, comecei a aprender a cozinhar. Observava meu pai, esse sim, um grande cozinheiro, que fazia comida de verdade. Tão bom que eram a tal farofinha de ovo, que comíamos de noite, enquanto acompanhavamos os jogos do colorado pelo radinho de pilha, ou a TV em preto e branco que ficava na cozinha.

Após padecer de sérios problemas gástricos, reinventei a minha forma de tratar o alimento. Aboli as comidas congeladas, evito comer fora, comecei a frequentar feiras. Houve um forte  mudança de paladar, comecei a gostar de comer.

Cozinhar passou a se transformar em prazer. O drink, a trilha sonora, o ambiente da minha cozinha, a pesquisa, o aprendizado por novas receitas, a recriação de novos conceitos. Cozinhar é um ato solitário para mim, mas que faço com grande alegria. Comida tornou-se um afeto, ou melhor, a busca de um afeto que eu criei. É um momento só meu em que coloco todo o meu amor no alimento, seja um simples bolo, ou até mesmo a ceia de ano novo, que faço questão de preparar todos os anos. Cozinhaterapia é um conceito muito pequeno. Cozinhar é uma forma de amar.





Share |

Nenhum comentário: